Adultice
Então finalmente eu
paro e chamo meu destino que parece não gostar de mim e lhe proponho
uma trégua, ele para de me iludir e eu prometo não fugir dele, após
longa conversa apertamos as mãos e sigo a rotina pretendida e
prometida ao rapaz preso ao corpo.
Então em um dia
regular, como num sonho, um toque, uma bebida forte e estamos
novamente ali, deitados sobre uma cama de pétalas cercados por anjos
a tilintar suas harpas enquanto sopram um ar forte e quente, aquele
azul penetrante dos seus olhos me faz entorpecer e esquecer do pudor
dos anjos d'antes ali, o tom amarelo desaparece na negritude das
minha pálpebras fechadas, e contra o meu rosto eu sinto sua pele e
seus fios, logo a carne se torna máquina e a máquina feita de aço
se derrete pelo calor que produzimos...
Perante a luz da lua
cheia que invade a janela eu caio no sono sorrindo, sim, ao lado da
musa que um dia eu sonhei e precocemente julguei inexistir, não
dizem que o desejo só existe por causa da sua própria falta? Depois
de hoje percebo que falta muito em mim, talvez não mais, não, não
mais, um cheiro leve e gostoso se aconchega junto ao meu peito
enquanto navego para longe, assisto mundos se colidirem e o
apocalipse desistir de acontecer enquanto estou ali, vendo o tom azul
escondido pelo sono e sua pele nua me constrangendo a cobri-la, estou
feliz, talvez agora eu seja o que? Um pássaro verde? Não, não
é bem isso... Perdoem-me esse é um simples traço perdido e que
insiste em tentar dar a tudo sentido...
Voltemos, aterrizemos e
fechemos a cortina da alma que gosta de sonhar, sentemos e sejamos um
pouco mais francos, e diga touché se eu
estiver correto, não se eleva a alma aos ventos mais brandos? Como
puritanos em Sodoma e Gomorra assim há pureza na alma, começamos
todos iguais, primeiro reconhecemos a verdade, depois a
negligenciamos, ao perceber que ela não vai embora a odiamos, ao
perceber que ela insiste a matamos, ao perceber que ela mesmo morta
revela quem somos a enterramos no quintal, esquecemos dela, e
torcemos para que ninguém nunca a mova dali. Não queremos ser
santos nem sábios, gostamos da corrupção, preferimos ser enganados
pela letra de tolos que se deixam levar pela ilusão e pela pena
esperamos ser salvos, sim, a justiça se torna uma lenda distante de
um tempo esquecido, a honestidade faz papel de um idiota qualquer no
teatro da vida, a fidelidade é deportada a força dos berços e dos
rebentos, logo uma cobra rasteja para qualquer lugar fazendo dela sua
toca, não crescem, não vivem, estão fora do tempo, paralisados por
algum veneno mortal, se devoram ao invés de plantar, falo como se eu
entendesse disso, que hipocrisia, estou no meio desse povo assistindo
a tudo isso e embora não participe ativamente do teatro estou sempre
na praça para assistir...
Vejo uma dança
esquisita se tornar costume, um fogo estranho que pula ao menor sinal
de vida, enquanto os vivos se tornam raros e os mortos vivos se
tornam tradicionais e desfilam na moda não há sinal de esperança,
bandeiras brancas se tornam sinal de escravidão, e os fracos e tolos
começam a reinar, em tudo isso reconhecemos os vivos não pelo tom,
mas pela falta dele, nos tornamos pálidos e fracos, somos
confundidos com eles, prefiro pessoalmente o termo infiltrados, ali,
escondidos, cheiramos a eles, e logo eles não nos notam, calamos os
murmúrios e eles seguem o caminho, isso não é viver, posso definir
no melhor dos meus dias como sobreviver...
Sobreviver é o
bastante? Queria acertá-los e derrubá-los mas sei bem que porcos ao
receberem dádivas as pisam e atacam quem os presenteou, pagam o bem
com o mal, isso não é racional, é puro e simples instinto.
Instinto que instiga o
ego e deseja se proliferar, simples assim, eles sempre querem nos
transformar neles, as mesmas falhas, os mesmos dogmas, as mesmas
leis, os mesmos preconceitos, as mesmas cores e marcas, assim são,
seres em série, odeiam aquilo que mostra que eles podem ser mais do
que são, como se isso evidencia-se que eles realmente podem, assim
matam os diferentes, excluem aqueles que os vencem, justificam suas
derrotas para serem reis de seu próprio umbigo, deuses falsos que
são oniscientes por seu conhecimento doentio e corrupto, assim tudo
que tocam corrompem, e assim vivem normalmente e nós mortais nos
envergonhamos disso, não vêem que um homem que pensa saber tudo se
torna um simples bibelô de si mesmo, um protagonista de uma história
falsa que nunca ocorreu, um simples ídolo? Sempre machucam tudo e a
todos e nem reparam, ah cansado ....
Cansado... o tom
amarelo fugiu, o vermelho se aproxima, e já não serei forte o
suficiente para andar, e depois nem de permanecer de pé, finalmente
vou cair e esperar o sonho me levar de volta pro lugar em que nunca
estive...
Onde estou? Era
inevitável que eu chegasse aqui, simples assim, as areias machucam
meu rosto e eu nego à dor e à agonia a vontade de eu levantar, por
pura teimosia cheguei aqui, no deserto de minha solidão, de um
teimosia insana que insiste em não me deixar ser carregado pelo
senhor de capuz negro que embora seja só pele e osso me afirma
categoricamente que seria muito mais simples se eu fosse assado, não,
não vou dar esse gostinho, aquele monte de areia e só o mar no
horizonte parecem até me levar a um mundo paralelo, logo os ruídos
dos mortos vivos são ignorados, logo a dor da areia grudada ao meu
rosto é esquecida, logo o ceifador é amaldiçoado a voltar de mãos
vazias, logo?...
Assim espero porém
nada ocorre, a minha vista se embasa, são lágrimas criadas lançadas
no chão de concreto, a única coisa que logo acontece é minha volta
a minha cidade, a minha rua, a minha casa, a minha cama, ah, não
posso esquecer do choro amargo que tão rápido como um pássaro
passa voando adquiri um tom triste de cinza sobre mim, é o tom da
idade, logo os mortos vivos se tornam comuns e escrevo sobre eles,
dialogo com eles, almoço com eles, vou ao cinema com eles, logo eles
também terminam gostando de mim, o círculo volta a rodar e as
pílulas a descer, no fim esperei? Não, firmei minha escolha em ser
nada além de um louco que viaja pelo tempo e é levado por ventos de
uma filosofia que ninguém consegue entender.
Triste? Talvez,
incompleto? Sempre, chato? Nem sempre, mas realístico ao menos, se é
que isso existe... Gostaria de completar deixando uma palavra de paz,
de conforto, porém quer saber? Ah não, nem eu quero dizer.
Com a idade uma pequena
roda criada por alguém para me ajudar a viver é tomada com água,
quer algo mais sem graça? Rápido isso se torna meu escorregador
predileto e a descida não para, meu corpo nega minha vontade e logo
eu também se torno um mero prisioneiro daquela força que age sobre
mim me levando sempre aos mesmos lugares, as mesmas comidas, as
mesmas bebidas, o mesmo... o mesmo... a mesma...
Então eu começo a
pensar: será que o tempo dourado dos meus vôos não eram melhores?
Um gosto picante sobre a boca e o metal me amedronta, não, não,
melhor não, o vento sopra forte do alto da ponte o suficiente para
me colocar pavor, os remédios se tornam cobras perigosas que eu
cuspo e o pensamento dos meus pulsos vermelhos me força a confessar
que talvez.... bem, não, não é.... mas meu senso não é dos
melhores, talvez sim, eu veja novamente o mundo se deteriorar para
dar vazão ao pequenino tom amarelo que eu não consigo mais
encontrar nem lembrar...
Labaredas acessas sobre
as casas dos meus pensamentos que foram criadas esperando algo ou
alguém para finalmente dar sentido a tudo isso, é assim que eu me
sinto agora que deixei de acreditar nisso, estranho, anos passaram
porém não foram o bastante para consumir tudo, ainda vejo almas
perdidas que nunca foram, vejo filhos que não tive, vejo meu amor
vir me ver, ainda vejo a lua dar a sua luz para nos iluminar, ainda
vejo.... Ah não, não esqueci daquele pedaço do céu em mim, ele
queima, mas não é consumido...
Forte e sufocante,
amarrado, preso a mim, sim, talvez essa seja uma boa definição:
preso. Recluso, tirado da sociedade pela sua incompetência em
sociabilizar, ah por favor, não deixem que estes traços ou a
melancolia extrema me elogiem, não é isso, não quero me eleger
como mártir, não é para ser bom, nem positivo, pelo menos não
para mim, ah como eu queria... ah como eu queria...
Queria sim voltar a
acreditar que ainda existem heróis, incorruptíveis e imortais,
hehe, sonho em voltar a sonhar enquanto me afasto do sonho e tiro os
meus olhos de tudo isso... olho agora para baixo... despenco o olhar
e logo se agradam de mim, palavras suaves que adoçam a vida e elevam
o ego, nem por isso as trevas se tornam meu berço, o costume me leva
novamente aos mesmos traços, uma insistência que não me deixa
ser...
Uma circunferência
perfeita, e eu mera tangente, estou ali fora, tocando ela porém
impossibilitado de ser mais... mas basta, basta disso tudo enquanto a
vida corre louca lá, vou deixar finalmente meu olhar voltar ao
horizonte, agora seja o que Deus quiser.
....
Depois de dias pensando
começo a achar que os homens não devem ser formados pela virtude,
pois sempre que estão próximos a alguma habilidade se tornam
inaptos nesta, sempre que estão próximos do poder se tornam fracos,
sempre que estão próximos da sabedoria se tornam tolos, assim penso
que talvez o silêncio para os sábios seja o melhor, o pudor para o
hábeis e a vergonha para os fortes, assim talvez o mundo acabe
melhor, quando aprendemos a carregar as cargas uns dos outros
deixamos os outros fracos, penso nisso e converso com Platão que
concorda em termos e discuto com Paulo que não acha isso correto,
mesmo assim convivemos....
Sei lá, talvez hoje
esteja o céu cinza, talvez hoje o cansaço tenha me arrebatado, tudo
isso tem se tornado sem sentido, olho para o Leste e não sei mais
para onde devo seguir, o calor nem o frio importam mais para mim,
assim também mitologias, filosofias, teologias todas elas não
completam o que desejo... Bem, talvez eu deva já me considerar
sortudo por saber pelo menos o que quero, mas não é assim que me
sinto...
Tá bom, eu sei também
que a demanda humana nunca seca, porém penso talvez que isso seria o
suficiente para mim, ah sei lá, como disse, hoje o céu está
nublado e eu cansado demais para pensar em coisas assim, até outro
tempo...
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