domingo, 11 de outubro de 2015

A Tal Intersecção - Parte 4


Adultice

Então finalmente eu paro e chamo meu destino que parece não gostar de mim e lhe proponho uma trégua, ele para de me iludir e eu prometo não fugir dele, após longa conversa apertamos as mãos e sigo a rotina pretendida e prometida ao rapaz preso ao corpo.

Então em um dia regular, como num sonho, um toque, uma bebida forte e estamos novamente ali, deitados sobre uma cama de pétalas cercados por anjos a tilintar suas harpas enquanto sopram um ar forte e quente, aquele azul penetrante dos seus olhos me faz entorpecer e esquecer do pudor dos anjos d'antes ali, o tom amarelo desaparece na negritude das minha pálpebras fechadas, e contra o meu rosto eu sinto sua pele e seus fios, logo a carne se torna máquina e a máquina feita de aço se derrete pelo calor que produzimos...

Perante a luz da lua cheia que invade a janela eu caio no sono sorrindo, sim, ao lado da musa que um dia eu sonhei e precocemente julguei inexistir, não dizem que o desejo só existe por causa da sua própria falta? Depois de hoje percebo que falta muito em mim, talvez não mais, não, não mais, um cheiro leve e gostoso se aconchega junto ao meu peito enquanto navego para longe, assisto mundos se colidirem e o apocalipse desistir de acontecer enquanto estou ali, vendo o tom azul escondido pelo sono e sua pele nua me constrangendo a cobri-la, estou feliz, talvez agora eu seja o que? Um pássaro verde? Não, não é bem isso... Perdoem-me esse é um simples traço perdido e que insiste em tentar dar a tudo sentido...


Voltemos, aterrizemos e fechemos a cortina da alma que gosta de sonhar, sentemos e sejamos um pouco mais francos, e diga touché se eu estiver correto, não se eleva a alma aos ventos mais brandos? Como puritanos em Sodoma e Gomorra assim há pureza na alma, começamos todos iguais, primeiro reconhecemos a verdade, depois a negligenciamos, ao perceber que ela não vai embora a odiamos, ao perceber que ela insiste a matamos, ao perceber que ela mesmo morta revela quem somos a enterramos no quintal, esquecemos dela, e torcemos para que ninguém nunca a mova dali. Não queremos ser santos nem sábios, gostamos da corrupção, preferimos ser enganados pela letra de tolos que se deixam levar pela ilusão e pela pena esperamos ser salvos, sim, a justiça se torna uma lenda distante de um tempo esquecido, a honestidade faz papel de um idiota qualquer no teatro da vida, a fidelidade é deportada a força dos berços e dos rebentos, logo uma cobra rasteja para qualquer lugar fazendo dela sua toca, não crescem, não vivem, estão fora do tempo, paralisados por algum veneno mortal, se devoram ao invés de plantar, falo como se eu entendesse disso, que hipocrisia, estou no meio desse povo assistindo a tudo isso e embora não participe ativamente do teatro estou sempre na praça para assistir...

Vejo uma dança esquisita se tornar costume, um fogo estranho que pula ao menor sinal de vida, enquanto os vivos se tornam raros e os mortos vivos se tornam tradicionais e desfilam na moda não há sinal de esperança, bandeiras brancas se tornam sinal de escravidão, e os fracos e tolos começam a reinar, em tudo isso reconhecemos os vivos não pelo tom, mas pela falta dele, nos tornamos pálidos e fracos, somos confundidos com eles, prefiro pessoalmente o termo infiltrados, ali, escondidos, cheiramos a eles, e logo eles não nos notam, calamos os murmúrios e eles seguem o caminho, isso não é viver, posso definir no melhor dos meus dias como sobreviver...

Sobreviver é o bastante? Queria acertá-los e derrubá-los mas sei bem que porcos ao receberem dádivas as pisam e atacam quem os presenteou, pagam o bem com o mal, isso não é racional, é puro e simples instinto.

Instinto que instiga o ego e deseja se proliferar, simples assim, eles sempre querem nos transformar neles, as mesmas falhas, os mesmos dogmas, as mesmas leis, os mesmos preconceitos, as mesmas cores e marcas, assim são, seres em série, odeiam aquilo que mostra que eles podem ser mais do que são, como se isso evidencia-se que eles realmente podem, assim matam os diferentes, excluem aqueles que os vencem, justificam suas derrotas para serem reis de seu próprio umbigo, deuses falsos que são oniscientes por seu conhecimento doentio e corrupto, assim tudo que tocam corrompem, e assim vivem normalmente e nós mortais nos envergonhamos disso, não vêem que um homem que pensa saber tudo se torna um simples bibelô de si mesmo, um protagonista de uma história falsa que nunca ocorreu, um simples ídolo? Sempre machucam tudo e a todos e nem reparam, ah cansado ....

Cansado... o tom amarelo fugiu, o vermelho se aproxima, e já não serei forte o suficiente para andar, e depois nem de permanecer de pé, finalmente vou cair e esperar o sonho me levar de volta pro lugar em que nunca estive...

Onde estou? Era inevitável que eu chegasse aqui, simples assim, as areias machucam meu rosto e eu nego à dor e à agonia a vontade de eu levantar, por pura teimosia cheguei aqui, no deserto de minha solidão, de um teimosia insana que insiste em não me deixar ser carregado pelo senhor de capuz negro que embora seja só pele e osso me afirma categoricamente que seria muito mais simples se eu fosse assado, não, não vou dar esse gostinho, aquele monte de areia e só o mar no horizonte parecem até me levar a um mundo paralelo, logo os ruídos dos mortos vivos são ignorados, logo a dor da areia grudada ao meu rosto é esquecida, logo o ceifador é amaldiçoado a voltar de mãos vazias, logo?...

Assim espero porém nada ocorre, a minha vista se embasa, são lágrimas criadas lançadas no chão de concreto, a única coisa que logo acontece é minha volta a minha cidade, a minha rua, a minha casa, a minha cama, ah, não posso esquecer do choro amargo que tão rápido como um pássaro passa voando adquiri um tom triste de cinza sobre mim, é o tom da idade, logo os mortos vivos se tornam comuns e escrevo sobre eles, dialogo com eles, almoço com eles, vou ao cinema com eles, logo eles também terminam gostando de mim, o círculo volta a rodar e as pílulas a descer, no fim esperei? Não, firmei minha escolha em ser nada além de um louco que viaja pelo tempo e é levado por ventos de uma filosofia que ninguém consegue entender.

Triste? Talvez, incompleto? Sempre, chato? Nem sempre, mas realístico ao menos, se é que isso existe... Gostaria de completar deixando uma palavra de paz, de conforto, porém quer saber? Ah não, nem eu quero dizer.

Com a idade uma pequena roda criada por alguém para me ajudar a viver é tomada com água, quer algo mais sem graça? Rápido isso se torna meu escorregador predileto e a descida não para, meu corpo nega minha vontade e logo eu também se torno um mero prisioneiro daquela força que age sobre mim me levando sempre aos mesmos lugares, as mesmas comidas, as mesmas bebidas, o mesmo... o mesmo... a mesma...

Então eu começo a pensar: será que o tempo dourado dos meus vôos não eram melhores? Um gosto picante sobre a boca e o metal me amedronta, não, não, melhor não, o vento sopra forte do alto da ponte o suficiente para me colocar pavor, os remédios se tornam cobras perigosas que eu cuspo e o pensamento dos meus pulsos vermelhos me força a confessar que talvez.... bem, não, não é.... mas meu senso não é dos melhores, talvez sim, eu veja novamente o mundo se deteriorar para dar vazão ao pequenino tom amarelo que eu não consigo mais encontrar nem lembrar...

Labaredas acessas sobre as casas dos meus pensamentos que foram criadas esperando algo ou alguém para finalmente dar sentido a tudo isso, é assim que eu me sinto agora que deixei de acreditar nisso, estranho, anos passaram porém não foram o bastante para consumir tudo, ainda vejo almas perdidas que nunca foram, vejo filhos que não tive, vejo meu amor vir me ver, ainda vejo a lua dar a sua luz para nos iluminar, ainda vejo.... Ah não, não esqueci daquele pedaço do céu em mim, ele queima, mas não é consumido...

Forte e sufocante, amarrado, preso a mim, sim, talvez essa seja uma boa definição: preso. Recluso, tirado da sociedade pela sua incompetência em sociabilizar, ah por favor, não deixem que estes traços ou a melancolia extrema me elogiem, não é isso, não quero me eleger como mártir, não é para ser bom, nem positivo, pelo menos não para mim, ah como eu queria... ah como eu queria...

Queria sim voltar a acreditar que ainda existem heróis, incorruptíveis e imortais, hehe, sonho em voltar a sonhar enquanto me afasto do sonho e tiro os meus olhos de tudo isso... olho agora para baixo... despenco o olhar e logo se agradam de mim, palavras suaves que adoçam a vida e elevam o ego, nem por isso as trevas se tornam meu berço, o costume me leva novamente aos mesmos traços, uma insistência que não me deixa ser...

Uma circunferência perfeita, e eu mera tangente, estou ali fora, tocando ela porém impossibilitado de ser mais... mas basta, basta disso tudo enquanto a vida corre louca lá, vou deixar finalmente meu olhar voltar ao horizonte, agora seja o que Deus quiser.

....

Depois de dias pensando começo a achar que os homens não devem ser formados pela virtude, pois sempre que estão próximos a alguma habilidade se tornam inaptos nesta, sempre que estão próximos do poder se tornam fracos, sempre que estão próximos da sabedoria se tornam tolos, assim penso que talvez o silêncio para os sábios seja o melhor, o pudor para o hábeis e a vergonha para os fortes, assim talvez o mundo acabe melhor, quando aprendemos a carregar as cargas uns dos outros deixamos os outros fracos, penso nisso e converso com Platão que concorda em termos e discuto com Paulo que não acha isso correto, mesmo assim convivemos....

Sei lá, talvez hoje esteja o céu cinza, talvez hoje o cansaço tenha me arrebatado, tudo isso tem se tornado sem sentido, olho para o Leste e não sei mais para onde devo seguir, o calor nem o frio importam mais para mim, assim também mitologias, filosofias, teologias todas elas não completam o que desejo... Bem, talvez eu deva já me considerar sortudo por saber pelo menos o que quero, mas não é assim que me sinto...

Tá bom, eu sei também que a demanda humana nunca seca, porém penso talvez que isso seria o suficiente para mim, ah sei lá, como disse, hoje o céu está nublado e eu cansado demais para pensar em coisas assim, até outro tempo...

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