domingo, 11 de outubro de 2015

A Tal Intersecção - Parte 1


Infância

Um amarelo vivo lhe caia aos ombros enquanto um cheiro agridoce era exalado, um azul contudo roubava a cena e seus cabelos se tornavam meras molduras, como um raio de luz que atravessa o vidro estava ali a musa dos meus sonhos, ou não?

Em uma atmosfera semidivina algo me confundia, o cheiro, embora suave me despertava para reconhecer que era um sonho simplório de um mero mortal e assim eu acordei sobre um monte de pele e osso desconhecido, algo errôneo e sem muito sentido, um desperdício, enquanto vozes e ruídos da rua invadiam o lugar eu me preparava para sair o mais rápido que podia dali, como um criminoso que foge da cena do crime eu arrancava os pés para fora e me dirigia para lugar nenhum, porque sempre é assim, ou não?

Enquanto tudo parecia inodoro, insípido e invisível minha mente pesava e um tom amarelo forte me lembrou do sonho no caminho, talvez a única coisa que reparei, claro, borrões de um dia estranho que voou e foi pousar já na volta para minha residência, embora um lapso de tempo seja comum para o estado de espírito que eu apresentava era incomum eu despertar tão cedo, sim, pois normalmente no meu leito é que eu refletia por segundos e isso era tudo... e como sempre esses segundos se tornavam cada vez mais um mero reflexo de um moribundo que já vai dessa para melhor. Assim a vida era afogada pelo tempo, o tempo pelo trabalho e o trabalho pelo dinheiro, uma ciranda maléfica criada por algum demônio ou homem que em nada desse se distingue.

Metrôs e escadas que não levavam a lugar algum, o meu único refúgio era um sonho louco de um tom amarelo que me emaranhava em seus cabelos, lábios e pernas e me fazia ninar, uma corda sendo afinada ou boneco jogado qual deles se parecia mais comigo?

Um solitário que vive voando sobre os próprios ombros, aterrissar com o tempo se torna tão assustador quanto necessário, mas e o tom amarelo?

Logo ele embota com o tempo e se torna marrom e depois cinza, cinzas de um tempo que não volta, não volta porque nunca esteve ali...

Ok ok, voltemos ao meu opaco e medíocre dia, enquanto tomo meu banho nada acontece, enquanto leio nada, enquanto saio e volto nada, os dias se tornam brandos, como ecos ignorados de algum som, sim, tudo é envolto e enterrado e assim minha vida se torna o que sempre foi, um mero sonho, um tom negro que sonhou em ser outra coisa...

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