Infância
Um amarelo vivo lhe
caia aos ombros enquanto um cheiro agridoce era exalado, um azul
contudo roubava a cena e seus cabelos se tornavam meras molduras,
como um raio de luz que atravessa o vidro estava ali a musa dos meus
sonhos, ou não?
Em uma atmosfera
semidivina algo me confundia, o cheiro, embora suave me despertava
para reconhecer que era um sonho simplório de um mero mortal e assim
eu acordei sobre um monte de pele e osso desconhecido, algo errôneo
e sem muito sentido, um desperdício, enquanto vozes e ruídos da rua
invadiam o lugar eu me preparava para sair o mais rápido que podia
dali, como um criminoso que foge da cena do crime eu arrancava os pés
para fora e me dirigia para lugar nenhum, porque sempre é assim, ou
não?
Enquanto tudo parecia
inodoro, insípido e invisível minha mente pesava e um tom amarelo
forte me lembrou do sonho no caminho, talvez a única coisa que
reparei, claro, borrões de um dia estranho que voou e foi pousar já
na volta para minha residência, embora um lapso de tempo seja comum
para o estado de espírito que eu apresentava era incomum eu
despertar tão cedo, sim, pois normalmente no meu leito é que eu
refletia por segundos e isso era tudo... e como sempre esses segundos
se tornavam cada vez mais um mero reflexo de um moribundo que já vai
dessa para melhor. Assim a vida era afogada pelo tempo, o tempo pelo
trabalho e o trabalho pelo dinheiro, uma ciranda maléfica criada por
algum demônio ou homem que em nada desse se distingue.
Metrôs e escadas
que não levavam a lugar algum, o meu único refúgio era um sonho
louco de um tom amarelo que me emaranhava em seus cabelos, lábios e
pernas e me fazia ninar, uma corda sendo afinada ou boneco jogado
qual deles se parecia mais comigo?
Um solitário que vive
voando sobre os próprios ombros, aterrissar com o tempo se torna tão
assustador quanto necessário, mas e o tom amarelo?
Logo ele embota com o
tempo e se torna marrom e depois cinza, cinzas de um tempo que não
volta, não volta porque nunca esteve ali...
Ok ok, voltemos ao meu
opaco e medíocre dia, enquanto tomo meu banho nada acontece,
enquanto leio nada, enquanto saio e volto nada, os dias se tornam
brandos, como ecos ignorados de algum som, sim, tudo é envolto e
enterrado e assim minha vida se torna o que sempre foi, um mero
sonho, um tom negro que sonhou em ser outra coisa...
Para continuar clique aqui > Parte II <
Para continuar clique aqui > Parte II <
Nenhum comentário:
Postar um comentário